domingo, 20 de janeiro de 2013

Montes Claros - Clínica particular é acusada de torturar viciados em droga


Clínica particular é acusada de torturar viciados em droga
Oficializada as acusações contra clínica particular em Montes Claros - Dione Afonso/Hoje em Dia

Uma clínica particular especializada no tratamento de pessoas viciadas em drogas foi denunciada ao Ministério Público Estadual (MPE), em Montes Claros, acusada de maus-tratos, tortura e de entorpecer os pacientes com medicamentos pesados.
O documento, de autoria do servidor público e ex-interno Pedro Ruas Neto, fala até na morte de um dos internos por overdose.
A Comunidade Terapêutica Resgatando Vidas, localizada no Anel Rodoviário, no bairro Grande Independência, é apelidada de “casa dos horrores” pelos internos. O diretor da instituição, Toney Tomaz da Silva, nega as acusações e afirma que os pacientes querem “fugir do rigor do tratamento”.
O analista de crédito Adriano Rocha Abreu, de 33 anos, ficou em tratamento no local entre novembro de 2010 e maio de 2011. “Tenho uma costela quebrada até hoje. Como me recusava a seguir as normas fixadas pela clínica, apanhei durante dois meses seguidos”, conta.
As sessões de maus-tratos e tortura seriam aplicadas, segundo a denúncia, tanto por Toney Silva quanto pelo coordenador Valério Ferreira. “Eu não queria tomar o coquetel de medicamentos conhecido como Caveirão, que deixava a gente dormindo por três dias. Abriam a minha boca, me agrediam e me amarravam”, acusa Adriano Rocha.

DINHEIRO
A família do analista de crédito pagava R$ 900 por mês pelo tratamento, além de fornecer verdura, arroz, feijão e outros produtos alimentícios. Ele relata que dividia o quarto com outros dez internos e era obrigado a limpar as fezes de outros pacientes. “Era uma situação humilhante. Alguns dormiam em colchões no chão. Se alguém conversasse alto, era levado para um quarto destinado às sessões de agressão e apanhava”, lembra Adriano.
O homem abandonou o tratamento antes dos seis meses previstos e passou por tratamento psicológico.

Caixa d’água
Responsável por fazer a denúncia ao MPE, Pedro Ruas também ficou internado na Resgatando Vidas, entre janeiro e julho de 2011. Na clínica, ele fez um diário sobre todas as irregularidades. “Os internos ‘rebeldes’ eram dopados e jogados dentro de uma caixa d’água cheia, no fundo da casa, quando também passavam a ser agredidos”.

SUPOSTA MORTE
Pedro conta como um dos internos teria morrido na clínica. Segundo ele, um homem de Sete Lagoas (região Central) foi internado na clínica em junho de 2011. “Um dia, ele estava muito agitado e recebeu uma alta dosagem de medicamentos e morreu”, conta o servidor público.
Ainda de acordo com Pedro Ruas, todos internos foram colocados no pátio, de costas, enquanto o corpo da vítima era retirado do local. A Polícia Civil em Montes Claros foi acionada e ficou de contactar as autoridades em Sete Lagoas para saber se há alguma denúncia sobre o desaparecimento do interno.

"Casa dos horrores" em Montes Claros pode ser interditada pelo Estado
Pátio da Comunidade Terapêutica Resgatando Vidas, com os internos na varanda - Dione Afonso

Um dia após denúncia feita pelo Hoje em Dia, o governo do Estado, por meio da Subsecretaria de Políticas sobre Drogas, enviou na última sexta-feira (18) a Montes Claros, no Norte de Minas, uma equipe para vistoriar uma clínica particular especializada no tratamento de dependentes químicos. O estabelecimento, acusado por ex-internos de maus-tratos, tortura e de entorpecer os pacientes com medicamentos pesados, corre o risco de ser interditado.
A expectativa era a de que as autoridades, que saíram de Belo Horizonte no início da tarde, chegassem à cidade à noite. Participam ainda da “força-tarefa” o Ministério Público Estadual (MPE) e a Vigilância Sanitária Municipal.
O alvo das investigações é a Comunidade Terapêutica Resgatando Vidas, localizada no bairro Grande Independência, às margens do Anel Rodoviário de Montes Claros. Segundo os denunciantes, o tratamento contra a dependência de drogas é balizado em agressões e até tortura, como a colocação dos pacientes “rebeldes” – previamente dopados à força – em uma caixa d’água cheia, no fundo do estabelecimento. A Polícia Civil investiga a suposta morte de um dos internos, em 2011.
A equipe da Subsecretaria sobre Drogas quer ouvir o depoimento dos atuais pacientes da “Casa dos horrores”, como foi batizada por ex-internos, para atestar, ou não, as denúncias. O objetivo é e encaminhá-los a novos estabelecimentos e dar suporte às eventuais vítimas.
O diretor da instituição, Toney Tomaz da Silva, nega as acusações e afirma que os denunciantes querem escapar do tratamento e ser transferidos para clínicas menos rigorosas. De acordo com ele, os 47 pacientes da esgatando Vidas têm o suporte de uma equipe multidisciplinar, com médico, enfermeiro, psicólogo, entre outros profissionais. Segundo Silva, a documentação está em dia.

De olho
O subsecretário sobre Drogas, Cloves Benevides, informou que, em dezembro, recebeu a denúncia de violência na clínica Resgatando Vidas. E afirma que os ex-internos foram orientados a procurar a Vigilância Sanitária, que tem a autonomia para interditar o estabelecimento, além do Ministério Público e do Conselho Municipal Antidrogas, órgão responsável pela fiscalização das atividades nas casas terapêuticas. “Todas essas medidas foram tomadas, permitindo que se abrisse uma ampla investigação”, disse Benevides.
O coordenador de Vigilância Sanitária de Montes Claros, José Osmando Mendes Aquino, disse que um fiscal sanitário foi incumbido de fazer a vistoria na clínica, a pedido da Vigilância Sanitária Estadual. De acordo com ele, o Ministério Público requisitou uma vistoria em todas as comunidades terapêuticas do municípios com o objetivo de conhecer com mais detalhes o atendimento aos viciados em drogas. O relatório foi concluído, mas Aquino ainda não tinha conhecimento do conteúdo.

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